sábado, 22 de março de 2014

Joseph ao pôr-do-sol

    No dia em que Joseph acordou já ia bem longe de casa. No autocarro, as pessoas em filas postas, sozinhas nos seus lugares, olhavam-no sorrateiramente. Tinha o cabelo do tamanho de um palmo, a barba do tamanho de dois e a roupa e a pele gastas. No bolso direito levava um bilhete para longe dali, e no bolso esquerdo um coração partido. Na boca ainda trazia o sabor da saudade e da melancolia de um dia de chuva.
    De alguma forma, cada uma das pessoas naquele autocarro tinham algo nelas que fazia com que Joseph voltasse 12 anos atrás no tempo. Para ele esta era a única forma de manter a memória viva. A única memória que Joseph sabia que valia de facto a pena que continuasse a arder.
    Cada vez se sentia mais fraco, a adormecer num sono tão profundo quanto o oceano, mas estava tão cansado de sonhar que não se atrevia a fechar os olhos.
    A senhora no banco da frente tinha o cheiro dela, pensava. Na verdade, cada mulher que encontrava tinha o cheiro dela, o que o levava a pensar que já nada sabia. Durante toda uma vida, o universo uniu forças contra ele, excepto num momento: na noite em que lhe deu o sol. Mas talvez tivesse sido um ato de maldade, visto que logo anoiteceu. Este foi o primeiro momento em que Joseph sentiu uma lágrima no rosto, só não se lembra se foi por ter visto o dia, se foi por lhe o terem tirado.
    Cada ano que ele procurava era menos um que tinha para procurar. Este pensamento apontava uma faca ao estômago de Joseph e deixava-o agoniado. O seu corpo velho estava agora tão dorido como enfeitiçado.
    Por 12 anos Joseph procurou e por mais 12 ele vai procurar, ele sabe disso.

Os ouvidos só ouvem uma palavra;
Os lábios não esboçam sorrisos;
Os olhos só sonham um sonho;
As pernas levam-no aonde quer que seja;
A chuva não o impede;
O sol acaricia-lhe a face;
O cérebro só guarda uma memória;
O coração só arde durante toda a vida:

"Janis, hei-de encontrar-te, nem que seja a primeira coisa que eu faça numa outra vida." 


Trindade

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