Aos ouvidos chega pouco mais
Que o ruído dos motores da noite.
Tendo já perdido a poesia
Fiquei debaixo da praia
Negra.
Sempre quis fazer as perguntas
Mas nunca tive mãos fortes
Para desenterrar respostas.
É uma pena.
O candeeiro faz a luz passar
Por entre os ramos.
Passa quebradiça
Para me deixar ver o papel e a minha sombra.
Tentei fugir-lhe, mas lento e escasso.
Sou pequeno debaixo deste mar.
Impune saiu por aqui a correr uma pedra da calçada.
Fugiu de frio e de medo pelo amanhã,
Pelos pés sujos e pesados
E pelo martelo do calceteiro.
Foi por ali praguejando
O que quer que fosse:
Palavras de arroz,
De saudade,
De calor e raiva,
Outras com o suor do velho culpado
Que ali a tinha deixado,
Mas nenhuma levava as pegadas.
Nem as leves nem as pesadas.
O arrepio seco trouxe-me de volta para aqui
Ainda bêbado e já ressacado com o sangue do barqueiro.
No fim esqueci-me de perguntar de quem é a culpa da verdade:
Do calceteiro,
Do poeta,
Do candeeiro
Ou do taberneiro que nos serviu o copo quase inteiro.
Trindade
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