Quando a escuridão encontra o silêncio
Já nem o correr nos salva.
Traçamos por aí linhas ténues
De uma raiva que nem nos pertence,
Cortante, estranhamente áspera.
De sol e luz são feitas as nossas mãos.
Os nossos mais obscuros pesadelos
São gigantes de pedra
Que pesados se afundam
Em grotescas quedas!
Traça o corte mais limpo que conseguires
E suja-me de sangue.
Envolve-me na poeira com que te alimentas
E dá-me razões para desistir.
Puxa os cabelos e grita!
Arranca pedaços de pele que te apertem
E corre.
Sai a correr e pensa
Que um corte tão fundo nem deve doer.
Será só mais um vulcão que adormeces,
Uma arma que derretes,
Um explosivo que desarmas,
Um violino que desafinas,
Um cigarro que fumas e
Um olhar que desvias.
Anda desvia o olhar!
Agarra-me o pescoço e torce-o!
Não digas nada,
Não chores nem uma lágrima.
Foge!
Foge mas não fujas.
Não chores...
Não me cortes
Nem me faças andar por aí tresloucado.
Dá-me uma razão ou a tua mão.
Passa-me o papel e deixa-me
Riscar partes de história que não importem.
Que se foda o frio que está lá fora
Ou o nevoeiro que me entra no quarto!
Que se fodam as noites em branco
E os relógios que param em horas incertas...
Que se foda isto e
Que se foda aquilo.
Trindade
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