Consumido pelos barulhos doentios das máquinas que regem tudo o que vê, até mesmo a velocidade a que o tempo passa por ele, deita-se no chão gelado, fecha os olhos mas depressa percebe que de nada lhe servem se assim for. Mantém-nos fechados pois o cansaço tinha-o consumido antes que qualquer outro ruído. Desta forma, em vez de ver um céu sem estrelas, vê uma vida desperdiçada em preocupações, uma ou outra lágrima desnecessária e tantas outras que vingaram as injustiças que nem lhe pertenciam... Sente-se mal por se sentir triste com o rumo que escolheu para a sua própria vida, mas ao mesmo tempo não se lembra quando causou tudo isto, ou mesmo se alguma vez teve outra hipótese!
Mas será que neste momento qualquer uma destas coisas importa? A poucos segundos de libertar um último suspiro para aquele céu de desespero, uma calma confusa faz os seus ossos estremecer. O medo, a ansiedade, a frustração, a revolta e tudo o que Carlos pudesse sentir naquele momento deixou de fazer sentido. Naquele momento esqueceu tudo, todas as feridas que fez e não ajudou a curar, todas as lágrimas que fez derramar e não ajudou a secar, o seu próprio nome e os sonhos que não perseguiu em troca de algum conforto e segurança. Naquele momento nada disso importava. O que era suposto mudar já tinha mudado e tudo o que se pensava não ter mudança possível acabaria um dia por mudar, com ou sem a sua ajuda.
"Tudo isto que se espalha diante dos nossos olhos é como que um animal selvagem sobre o qual não temos como impor regras, leis ou condições. Somos tudo aquilo que temos e ao mesmo tempo somos quase nada. Pouco importa agora aquilo que façamos. A nossa oportunidade foi esta, foi-nos dada e em breve será desperdiçada, e nada, nem mesmo um ultimo suspiro pode mudar isso."
Trindade
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