segunda-feira, 20 de outubro de 2014

As lulas gigantes têm seis corações

Enquanto a porta por onde não entras se abre, o frio de um qualquer lugar distante passa e corta-me a metade tal como as estrelas cortaram a noite. Trazias seda no lugar da pele e fazias-te passar por mulher, enquanto alcançavas o fósforo que mais tarde me incediaria. Quando o alcançaste sopraste-lhe, sorriste levemente e as chamas consumiram a réstia de vazio que havia em mim. Só não sorrio contigo porque não consigo. O teu silêncio selou os meus lábios e apagou-me da memória a palavra "tropeçar". Tropecei no momento e apercebi-me de que nem sequer és real. Não és. Não não. Por essa altura o frio voltou a entrar, mas desta vez não tremi e dei-lhe um copo vazio. Pedi-lhe que o enchesse com os gestos que tu fazias, com o enleio dos teus pensamentos, com a figura que vestes, com os lábios com que beijas ou com os olhos que insistes em fechar. Porque fechas tu esses olhos, se te deixam ver a estrada? Porque não pisas tu a estrada quente, arrefecendo-a com o frio do teu corpo? Queria saber quantas vezes te perdeste a contar passos ou caras pálidas ou apartamentos antigos ou paredes por pintar ou buracos na calçada! Nasce, reencarna, renasce! Volta! Melhor - nunca vás! Fica. Fica aqui com os teus pés descalços. Esmaga com eles qualquer dúvida que eu tenha. Corre pela minha cabeça! Enleia os teus dedos nas minhas fraquezas e não me deixes sair impune, pois sou culpado no crime de te confundir com poesia e prosa, surrealismo puro e música... Mas afinal de contas quem sou eu para partilhar um mundo tão pequeno com alguém tão grande? Ao mesmo tempo, quem sou eu para ter de abdicar dos arrepios que me trazes? Antes da certeza vem a dúvida, mas antes do dilúvio vens tu.

João Pedras

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