segunda-feira, 18 de maio de 2015

Piscinas vazias ou praias barulhentas?

Acordei e disse para mim mesmo que te tinha visto. Não querias olhar para o horizonte Ao mesmo tempo que os meus pés se afastavam do chão. Dizias que lá o céu era negro, E a verdade é que não te podiam oferecer mais Que todas aquelas nuvens espessas, Construídas com as forças de tantos sóis! Querias traduzir a saudade De forma a deixar-lhe o devido amargo. Mas em tantos anos Tantos tentaram, Tantos falharam, Tantos caíram e Tantos como tu fecharam os olhos. Não que seja negro, Não que lhe faltem as nuvens. Mas se chegar até nós tal como nos chegam os ventos, Digo-lhe que espere no alpendre, Que se olhe E faça a cadeira baloiçar E ranger. Peço-lhe que toque a harmónica E me diga o nome e a história De todos os que se conformam Com a poeira nos olhos E a música desafinada. "Piscinas vazias ou praias barulhentas?" Se esquecermos os soluços, Os corpos que se contorcem em silêncio E os vidros na areia, Chegamos ao princípio do fim: A tela sobe, o corpo veste-se e sai à rua. De pele suja e velha, uma cadeira baloiça e uma harmónica soa. Antes da tela cai devagar o sol e ali fica um e o outro. Ambos esperam que no fim, Quando a tela e os aplausos caírem, Soe bem lá no fundo O quase inaudível som da saudade. Na mesa um livro que a explique e Na parede uma fotografia que a denuncie.

Trindade

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