Acordei e disse para mim mesmo que te tinha visto.
Não querias olhar para o horizonte
Ao mesmo tempo que os meus pés se afastavam do chão.
Dizias que lá o céu era negro,
E a verdade é que não te podiam oferecer mais
Que todas aquelas nuvens espessas,
Construídas com as forças de tantos sóis!
Querias traduzir a saudade
De forma a deixar-lhe o devido amargo.
Mas em tantos anos
Tantos tentaram,
Tantos falharam,
Tantos caíram e
Tantos como tu fecharam os olhos.
Não que seja negro,
Não que lhe faltem as nuvens.
Mas se chegar até nós tal como nos chegam os ventos,
Digo-lhe que espere no alpendre,
Que se olhe
E faça a cadeira baloiçar
E ranger.
Peço-lhe que toque a harmónica
E me diga o nome e a história
De todos os que se conformam
Com a poeira nos olhos
E a música desafinada.
"Piscinas vazias ou praias barulhentas?"
Se esquecermos os soluços,
Os corpos que se contorcem em silêncio
E os vidros na areia,
Chegamos ao princípio do fim:
A tela sobe, o corpo veste-se e sai à rua. De pele suja e velha, uma cadeira baloiça e uma harmónica soa.
Antes da tela cai devagar o sol e ali fica um e o outro. Ambos esperam que no fim,
Quando a tela e os aplausos caírem,
Soe bem lá no fundo
O quase inaudível som da saudade.
Na mesa um livro que a explique e
Na parede uma fotografia que a denuncie.
Trindade
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