Cabelos em chamas,
Águas barulhentas,
Vizinhos surdos,
Corpos desconhecidos,
Olhos fechados e outros abertos,
Corridas pelo espaço,
A lua cheia de um fumo venenoso
E outros tantos sonhos loucos.
Mas no fim de tudo chego sempre
Ao mesmo quarto vazio
Onde o teu corpo se senta nú.
Os olhos embriagados não enxergam.
Podiam eles abrir-se, olhar em volta
E de novo fechar-se.
Mas a noite quer-lhes mal,
Todo o mal!
Pede-lhes que fiquem deitados
E sussurra-lhes para que não levantem a poeira
Que a música tentou acalmar.
A este ponto já não sabem se vale a pena
Tentar lutar contra a corrente,
Ou se mais vale esperar
Pelo banho de água quente
E esperar pelo dia
Em que todas as dúvidas existenciais
Não sejam mais que
Meras conversas de serão.
As velhas olham por cima dos óculos
E pedem a deus que a colheita seja boa,
Que a roupa não encolha no estendal,
Que o galo não morra antes de cantar
E que o céu lhes caia em cima
Antes que o galo cante.
Os velhos,
Que por esta hora fingem dormir,
Só querem que o galo cante rapidamente.
Gritam nos seus sonhos fingidos
Para que a faca que os outros afiam
Seja tão fina quanto papel,
Tão fino que não se escreva lá nada disto
Sem que rasgue.
Eu,
Enquanto tudo isto,
Dormito e escrevo.
E enquanto eu escrevo os meus sonhos,
Chego sempre ao mesmo quarto vazio
Onde o teu corpo se senta nú.
E enquanto escrevo o teu corpo,
Explode uma estrela
E nasce outra,
Um bebé chora de fome
E outro chora de falta dela,
Uma mulher corre descalça
E outra paira por aí de sapatos na mão.
E enquanto tudo isto,
Dormito e escrevo.
E enquanto escrevo nos meus sonhos,
Chega sempre a mim o mesmo quarto vazio
Onde paira sentado o teu corpo nú.
Trindade
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