"Já me saías da frente!", dizes tu para a tua rotina. Essa puta nem se vende nem se dá. Ela cola-se, agarra-se, aperta a tua tão modesta liberdade e dá-lhes uns nós cegos com um cabo d'aço em brasa, tranca-a a oito chaves, dá-te uma e manda-te farejar as outras.
"Eu não sou nenhum cão!", reclamas tu com uma faca de indignação escondida na meia. A verdade é que o és. Não passas de um escravo de algo que tu próprio criaste. Um fraco espírito que ao experimentar nunca mais de lá saiu nem tão depressa vai sair. Admite, ficaste preso!
Queres sair a qualquer custo mas tu dependes de um horário ridiculamente repetitivo que te sufoca e tu, como ser fraco que és, não consegues...
O cumprimento de uma rotina nem à tua cegonha deves. Ela própria cospe no teu pé como sinal de desilusão e desprezo. Ela não quer que leves essa vida. Trouxe-te na esperança de que fosses maior. Desiludiste-a...
Em troca só já te traz pedras para atirares ao teu reflexo e para meteres no sapato. Vai-te doer cada passo que deres e, em cada nódoa negra, estará escrita a tua triste sina.
Vais gastar todo o teu papel, pintado a sangue de inocentes, em analgésicos na tentativa de aliviar a dor de uma caminhada e não terás o que comer.
Sem o espelho que partiste deixarás de te conhecer e perdes-te.
A tua maior obra cai e parte-se em pedaços finitos e docemente aguçados.
Só tens uma saída e optas por lhe dar uso: Agarras confiante na pedra mais pesada e matas o criador. Afinal, ela cuspiu no teu pé! Faminto, devora-la, saciando a tua fome. Chama-se lei do mais forte.
Pegas no pedaço mais aguçado de ti e, enquanto feres a tua própria mão, cortas o que te estrangula a liberdade. Pegas nela e foges com medo de cair novamente na tentação.
Agora só precisas de começar de novo sem desenhar qualquer tipo de plano. O truque é esse.
Trindade
27/03/2013
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