Quando o calafrio matinal me acordou depois de um sono em brasa, lembrei-me que fazer exigências é um direito que até ao papagaio que passeias à trela assiste.
Deixa-me ao menos fazê-las e diz-me depois se as mereço. Mesmo que não as mereça cumpre-as que nem mulher que és.
Dá-me a tua roupa quando tiveres frio e eu calor como prova de amor;
Dá-me o vinil onde gravaste os gritos para espantares os espíritos que te acariciam durante o sono:
Dá-me a tesoura com que cortas o cabelo no fim de um longo e rápido fim-de-semana;
Dá-me o fogo que usas para manter o inferno quente o suficiente para eu um dia lá transpirar;
Dá-me o pedaço de terra onde nasceste e seguiste o sol;
Dá-me o teu perfume para eu entornar na almofada;
Dá-me uma injeção intravenosa da tua mais negra magia;
Dá-me um beijo com sabor a apocalipse;
Dá-me o lápis que usas quando desenhas em nuvens com rimas brancas;
Dá-me o balde de tinta onde molhaste os dedos para pintar casulos no meu estômago;
Dá-me o tutorial dos teus nós de garganta;
Dá-me a morada do jardim onde costumas fazer sexo com a noite;
Dá-me o teu melhor olhar de engate e deixa-me não resistir;
Dá-me a lâmina com que cortas as raízes a quem te blasfemiza e ainda está no mesmo vaso;
Dá-me a aspirina que mate a dor de cabeça mais suave que nunca tive;
Dá-me a outra lâmina, a que usas para ameaçar de morte a virgindade dos bêbados que queres curar;
Dá-me desse ópio e deixa-me conversar contigo numa trincheira enfeitada a rigor;
Dá-me o cavalo de tróia que usaste para tentar entrar neste mundo;
Dá-me o megafone com que impões silêncio no espaço;
Dá-me a direção do bar onde todas as noites despes a roupa mas nunca o preconceito;
Dá-me a palavra mais feia e ainda assim vai soar poéticamente correta;
Dá-me a tua melhor música e dança como se estivesses a ser bombardeada por pedaços de ti própria.
Decide mas decide bem rápido a hora em que me matas. Quero planear um jogo de bilhar contra mim próprio e ver se é desta que me derroto.
Se me derrotar a mim derroto-te a ti.
Se não conseguir guarda o lança-chamas e deixa-me tentar de novo.
Trindade
31/03/2013
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