sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A conta que Joseph fez

   Assim que Joseph saiu à rua inspirou três vezes. Três vezes o céu lhe soube a mar.
   Naquele dia acordou com uma dor de cabeça que lhe queimava o bem estar e um mau hálito que o afastava dali. A sua roupa cheirava a cinzeiro, vinho e perfume de mulher. Rosas. Ou então tulipas. Eram flores, isso ele sabia.
   Sentia-se hipnotizado por entre toda aquela imundice. Sentia-se louco.
   Fazia gestos pesados e disformes enquanto perguntava às pessoas o paradeiro de tal mulher. As suas unhas grandes e sujas assustavam toda a gente. O cabelo e a barba faziam dele um qualquer sem abrigo, nojento, doente, perigoso.
   Toda a gente corria para lugar nenhum, na pressa de mais um dia, mas Joseph não tinha para onde correr. Joseph correu. Correu e correu.
   Parou de correr no momento em que os seus olhos brilharam.
   Inspirou três vezes. Três vezes o céu lhe soube a flores.
   Olharam-se, amaram-se, perderam-se. Eram ali eternos, infinitos, um.
   Gritaram, lutaram, morreram. No chão caiam pequenas gotas de sal. O som que faziam era ensurdecedor. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!
    Joseph inspirou três vezes. Três vezes o céu lhe soube a apocalipse.
   Antes de tudo, deixou de sentir. Já não sentia o vento frio que antes lhe queimava os olhos, não sentia o nó que lhe tinham dado no estômago, não sentia os risos, não sentia os olhares... Não sentia nada para além da corda rugosa que lhe envolvia o pescoço.
   Joseph suspirou três vezes. Três vezes os suspiros lhe soaram a apocalipse.

Trindade

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