Na manhã em que acordou não passava de uma chama. Uma criança de olhos brilhantes. Berrante enquanto via pela primeira vez o mundo que era dele.
Naquela manhã acordou sem saber ler nem escrever, sem saber ver ou olhar, sem saber tocar ou gritar, sem saber saber, sentir ou explicar. Tinha acordado como na noite em que veio ao mundo.
Sabia nadar. Mergulhar em apneia num estado de total fusão com a cor do céu. Era um adolescente a descobrir o amor, tocando pela primeira vez os seus lábios noutros. Molhados de espirais coloridas e calafrios. Ereções capilares tão rápidas como a sombra da lua. Tão simples e tão complexo.
Assim que os seus olhos se abriram conheceu-o pela primeira vez - O seu mundo. Queria que fosse um mar e rebentou em lágrimas.
Era apenas uma criança, sozinha num apartamento pesado e sujo. Aprendeu a ser sóbrio, aprendeu a lavar a cara para sentir de novo a água, fria desta vez.
Aprendeu então que as sensações estranhas que sentia eram o seu corpo frio como a neve. Aprendeu a aquecer-se mas ainda tremia. Enfureceu-se por não saber e aprendeu a matar. Matou.
Depois decidiu aprender a pensar e sentou-se. Pegou numa caneta, aprendeu a senti-la e então a escrever. Escreveu-se.
Só no fim de tudo, só no fim da tinta ele aprendeu a ler. Não se sabe ao certo para que o fez, mas há quem diga que foi para se conhecer.
Trindade
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